
No século passado, o valor de uma empresa era medido pela quantidade colaboradores,
tamanho de galpões e o volume de estoques físicos. Hoje, empresas extremamente
valiosas podem ter estruturas físicas enxutas, mas detêm um patrimônio invisível
gigantesco: marcas consolidadas, softwares proprietários, patentes, carteiras de clientes e
tecnologias disruptivas. Com essa situação, como contabilizar ativos intangíveis?
Dominar este nicho da contabilidade é a chave para traduzir a capacidade de geração de
valor das empresas modernas. Afinal, um erro neste cálculo pode prejudicar fusões,
aquisições ou a captação de investimentos.
Abaixo, detalhamos as regras, os critérios de mensuração e as particularidades técnicas
que você precisa dominar para contabilizar esses bens não físicos com segurança.
O conjunto de regras para um ativo intangível no Brasil é o CPC 04 (R1) / NBC TG 04, convergente com a norma internacional IAS 38. Segundo a norma, para que um bem não físico seja classificado como ativo intangível, ele precisa cumprir simultaneamente três requisitos fundamentais:
Exemplos comuns: softwares e sistemas ERP, patentes de invenções, marcas registradas, direitos autorais, franquias, licenças de exploração e carteiras de clientes adquiridas.
A maior armadilha para o profissional contábil está na origem do intangível. O tratamento contábil muda drasticamente se o ativo foi comprado de terceiros ou se foi desenvolvido “dentro de casa”. Veja diferentes possibilidades de cenários:
Este é o cenário mais simples: se o seu cliente comprou um software pronto ou adquiriu o direito de uso de uma marca, o reconhecimento é imediato. O ativo é registrado pelo seu custo de aquisição (preço de compra + impostos não recuperáveis + custos diretos para colocar o ativo em condições de uso).
O verdadeiro teste para o contador especialista: a legislação proíbe o reconhecimento genérico de custos internos como ativo. Para evitar fraudes ou inflar balanços artificialmente, a norma divide o desenvolvimento interno em duas fases estritas:
Uma vez reconhecido o intangível no balanço, o trabalho do contador continua através do monitoramento do ciclo de vida desse ativo. Diferente dos ativos imobilizados (que sofrem depreciação), os intangíveis passam por dois processos distintos:
Mas se os ativos com vida útil indefinida não são amortizados, como garantir que eles não estão superavaliados no balanço? A resposta é o teste de impairment, que deve ser feito no mínimo uma vez por ano para ativos com vida útil indefinida (ou sempre que houver indícios de desvalorização para os de vida definida).
O teste compara o valor recuperável; que é o maior valor entre o valor líquido de venda do ativo e o seu valor em uso (fluxo de caixa descontado que ele projeta gerar). Se o valor contábil for maior que o recuperável, o contador deve realizar uma provisão para perdas, reduzindo o valor do ativo e lançando o prejuízo no resultado.
Para startups de tecnologia, franquias e empresas com poucos ativos físicos, o intangível é praticamente o coração do negócio.
Quando o contador atua de forma especializada e consegue segregar adequadamente o que é custo de desenvolvimento ativo, o balanço passa a refletir a real robustez tecnológica da empresa. Em rodadas de investimentos, auditorias ou processos de venda de participação, essa precisão técnica eleva o patamar de profissionalismo da governança corporativa da organização.
A contabilidade de ativos intangíveis afasta o profissional da figura tradicional do “guarda-livros” e o aproxima da cadeira de conselheiro de finanças corporativas. Exige sinergia com a equipe de engenharia de software, com advogados de propriedade intelectual e com gestores de projetos.
Para se destacar no mercado atual, o profissional contábil precisa ir além de obrigações fiscais básicas e dominar normas complexas de contabilidade. Afinal, saber precificar e registrar o que não pode ser tocado é, hoje, uma das habilidades mais valiosas do mercado corporativo.
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